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A importância da Psicopedagogia na Saúde Mental em Portugal |Entrevista à Prof.ª Doutora Ana Cardoso

A importância da Psicopedagogia na Saúde Mental em Portugal |Entrevista à Prof.ª Doutora Ana Cardoso
19:30:04 30-05-2018 Comissão Científica Plataforma Saudementalpt Entrevista

Descrição

A Plataforma Saudementalpt teve o privilégio de entrevistar a Profª Doutora Ana Cardoso a propósito da importância da psicopedagogia na saúde mental em Portugal. Segue-se o contributo da professora.

 

1. O que é a Psicopedagogia, é uma formação superior, ou é um campo de acção de outras licenciaturas?

A psicopedagogia é uma formação superior. Em Portugal, a licenciatura chegou em 1995, pela Universidade Moderna (curso homologado pelo Ministério da Educação), sendo que Portugal é o 4º País da Europa e o 3º da União Europeia a ter profissionais com esta formação. Actualmente, o curso é ministrado em Aveiro, no Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração.

2. O que faz um Psicopedagogo?

O psicopedagogo pode intervir em contextos variados e junto de populações muito distintas. É comum as pessoas associarem a Psicopedagogia à intervenção junto de crianças com dificuldades de aprendizagem, no entanto, o nosso campo de actuação é muito mais vasto. Temos formação para trabalhar em instituições educativas e comunitárias, hospitais e unidades de saúde e serviços de reabilitação, organizações autárquicas, instituições de assistência e protecção jurídica a menores, instituições prisionais e de reinserção social, instituições de acolhimento e de apoio social ou comunitário, etc..

Em qualquer um destes contextos, quer seja clínico, quer seja institucional, a intervenção psicopedagógica é direcionada para a compreensão das dificuldades da pessoa, possibilitando a aquisição de competências e o desenvolvimento de potencialidades, de uma forma prática, interactiva e breve, utilizando, para esse efeito, o método pedagógico.

Como em qualquer profissão, cabe, posteriormente, a cada profissional, aprofundar os seus conhecimentos ao longo da sua carreira de acordo com a área específica onde actua.

3. A Ana escolheu a área da saúde mental. Como surgiu essa escolha e o que tem feito para aprofundar os seus conhecimentos?

Sim, escolhi a área da saúde mental muito antes de ir para a faculdade. Nunca tive quaisquer dúvidas que a minha profissão teria que ser relacionada com a área da saúde mental. Aliás, bem antes de ingressar no curso, lembro-me de escrever e ler bastante sobre temas relacionados com a saúde mental.

Actualmente, ainda contínuo a investir na formação. Fiz a minha pós graduação em Promoção da Saúde em 2002, conclui o Mestrado em Saúde Mental em 2008, e terminei em 2017 o Doutoramento, também na Faculdade de Ciências Médicas, em Ciências da Vida, especialidade em Saúde Mental. Fora isso, tenho feito outros cursos de especialização, todos na área da saúde mental e com o objectivo de ir aprofundando e aperfeiçoando os meus conhecimentos.

4. Pretende ficar por aqui?

Não, considero que ainda tenho muito que aprender. É uma necessidade que sinto. Os projectos de investigação em que tenho vindo a participar tem-me possibilitado responder a questões, no entanto, muitas outras têm surgido e é na busca dessas respostas que pretendo continuar.

5. Qual foi tema da sua tese de doutoramento?

Debrucei-me sobre o impacto que as atitudes e crenças de doentes e profissionais de saúde podem ter na adesão ao tratamento em psiquiatria.

6. Algum resultado que valha a pena sublinhar?

Destaco a importância que as competências interpessoais e comunicacionais dos profissionais de saúde mental podem ter na adesão ao tratamento dos nossos doentes. São vários os factores que podem levar uma pessoa a não aderir ao tratamento. No entanto, é comum associar a não adesão a factores relacionados com o doente. Nesta investigação, ficou comprovado que, para além dos factores relacionados com o doente, tratamento e doença, o tipo de relação que o clínico estabelece com a pessoa e a forma como comunica com ela, são factores relacionados com os profissionais tão ou mais importantes e que influenciam, muito mais do que aquilo que provavelmente se pensa, a adesão dos doentes ao tratamento.

7. De que forma é que a Psicopedagogia actua na saúde mental?

Em 2009, com o objectivo de definir as competências próprias e partilhadas de cada profissional de saúde mental, realizou-se um encontro na Cúria, promovido pela então Coordenação Nacional para a Saúde Mental. Desse encontro resultou o documento de consenso para a Estrutura e Funções das Equipas de Saúde Mental e Comunitárias. Relativamente aos psicopedagogos, ficou definido que, enquanto competências próprias, cabe-nos fazer o diagnóstico das condições de ensino-aprendizagem em Saúde Mental e, elaborar, aplicar e avaliar programas pedagógicos específicos em saúde mental.

Resumindo, no final da intervenção, pretende-se que cada pessoa se sinta mais capacitada, “mais educada”, mais sensibilizada e melhor preparada para lidar com os problemas com que se depara, utilizando, para isso, estratégias pedagógicas facilitativas que são aprendidas ao longo do processo terapêutico.

8. Quais as patologias ou alterações, na área da saúde mental e neurológica, mais indicadas para usufruir da intervenção psicopedagógica?

Não considero que exista propriamente uma patologia ou alteração específica que possa beneficiar mais que outra com a nossa intervenção. De acordo com cada diagnóstico, a psicopedagogia assenta em directrizes baseadas na evidência e que se têm revelado importantes no processo de recuperação de uma pessoa que tenha um problema de saúde mental, seja ele qual for. Mais uma vez, vale a pena reforçar que a actualização dos conhecimentos ao longo da carreira é fundamental para que possamos dar respostas cada vez mais eficazes.

Porém, para que a recuperação da pessoa ocorra da forma mais favorável possível, é, em alguns casos, necessário haver uma articulação com outras valências. Há situações em que, por exemplo, para que a intervenção psicopedagógica possa ter impacto, é necessário que a pessoa cumpra a terapêutica e, nesses casos, a articulação com o médico psiquiatra é crucial.

9. Qual o tipo de apoio concreto que um psicopedagogo pode dar a uma pessoa com esquizofrenia, por exemplo?

Inicialmente é realizada uma a duas consultas de avaliação. Com base nessa avaliação, é feito o diagnóstico psicopedagógico e, posteriormente, desenvolvido um Programa Psicopedagógico Individual (PPI) adequado às queixas e necessidades da pessoa. O PPI corresponde a um plano de tratamento estruturado, composto por vários módulos e assente em objectivos específicos. Em termos gerais, os principais objectivos do PPI passam por: (1) Estimular o desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas e de intervenção na crise; (2) Promover o insight e a adesão ao tratamento e (3) Desenvolver a capacidade de resiliência de cada pessoa, isto é, ajudar as pessoas a descobrirem as suas capacidades, aceitá-las e confirmá-las positiva e incondicionalmente, de forma a tornarem-se mais confiantes e resilientes para enfrentar os desafios do dia-a-dia por mais adversos ou difíceis que se possam apresentar.

Na maior parte das vezes, quando uma pessoa adoece a família “adoece” também. Por esse motivo, é necessário que sejam dirigidos esforços aos familiares/cuidadores. A intervenção psicopedagógica a este nível baseia-se em três objectivos: (1) Transmitir conhecimentos sobre o problema, através de uma forma simplificada e assente em pressupostos pedagógicos, em que o doente é visto como o perito na sua doença; (2) Facilitar o treino de comunicação facilitada e (3) Desenvolver estratégias de resolução de problemas.

10. Há dados científicos sobre o impacto da psicopedagogia nas perturbações mentais?

Sim, têm sido publicados vários estudos nacionais e internacionais que demonstram a efectividade dos programas psicoeducativos na área da saúde mental, quer seja na abordagem feita aos doentes, quer junto dos familiares.

11. Esses resultados têm sido promissores, positivos?

Sim, bastante, o que justifica que continuem a desenvolver-se esforços nesse âmbito, de modo a minimizar o impacto dos problemas de saúde mental na vida destas pessoas e poder, assim, contribuir eficazmente para a recuperação dos doentes, bem como para o alívio da sobrecarga dos familiares.

12. Desde há quanto tempo é que desenvolve este tipo de intervenção?

Licenciei-me em 1999 e tive o privilégio de trabalhar no Hospital Miguel Bombarda durante 10 anos. Fiz neste hospital o meu estágio de saúde mental em 1997 e sai quando hospital fechou, em 2007. Desde essa altura que tenho vindo a colaborar com o Centro de Estudos de Doenças Crócinas e Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas, onde tenho participado em vários projectos de investigação em áreas como a esquizofrenia e demências, por exemplo.

Actualmente, para além de ser formadora em várias instituições hospitalares, desenvolvo a minha prática clínica somente em contexto privado (Lisboa e Setúbal). Portanto, há quase 20 anos que trabalho com pessoas no contexto da saúde mental.

13. Deixou o HMB em 2007. Tem saudades desse tempo?

Sim, bastantes, são experiências que nunca se esquecem. Aprendi muito com as pessoas que me cruzei, desde enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, psiquiatras e com os meus colegas psicólogos com quem partilhava a supervisão e discutia casos clínicos. Havia um trabalho de equipa pleno e o foco daquilo que fazíamos era a recuperação da pessoa doente doente. Para além dos meus colegas, aprendi, sobretudo, com as pessoas que acompanhei.

14. Desde a altura em que se formou, considera que a saúde mental tem evoluído em Portugal?

Sim, sem dúvida, ainda que considere que muito há por fazer. Por exemplo, na minha opinião, é fundamental que se continue a apostar na integração destas pessoas no mercado de trabalho e na articulação entre os serviços de saúde mental e os cuidados de saúde primários.

É também importante incentivar mais a formação dos profissionais de saúde mental e encorajar a investigação. No trabalho de investigação que desenvolvi durante quase 6 anos, em três departamentos de saúde mental de hospitais públicos da área da grande Lisboa, deparei-me com uma taxa muito reduzida de participação por parte destes profissionais, nomeadamente médicos psiquiatras. Esses dados revelam que muito há ainda por fazer e todos, enquanto profissionais de saúde mental, somos responsáveis por isso.

15. Porque razão é que acha que houve uma taxa de participação tão reduzida por parte dos profissionais?

Tal como tive oportunidade de investigar, são vários os motivos que nos ajudam a compreender esta taxa de participação tão baixa. Por exemplo, a descrença generalizada em relação à investigação, em consequência da falta de incentivo das escolas médicas em apelar à sua importância, a falta de interesse no tema; a falta de disponibilidade e/ou falta de motivação dos profissionais, são apenas alguns factores que nos podem ajudar a compreender melhor este fenómeno.

16. Por fim, deixe-me perguntar-lhe, qual o maior desafio no exercício da sua profissão?

Enquanto psicopedagoga o maior desafio passa, sem dúvida, por facilitar o acesso à informação e, dessa forma, actuar também no combate ao estigma. Hoje em dia há ainda quem evite procurar ajuda por causa do estigma associado às doenças do foro mental, o que faz com que as consequências no futuro para a vida destas pessoas e respectivos familiares, possam ser ainda mais severas.

Por esse motivo, cabe aos profissionais de saúde em geral, facilitar esse acesso e compreender a importância que as suas atitudes e crenças podem também ter na adesão ao tratamento destas pessoas. A qualidade da relação terapêutica, a forma como se comunica e se transmite a informação ao doente e familiares, bem como o pleno trabalho multidisciplinar, são aspectos-chave e que podem ter um impacto muito maior do que aquele que se considera. Por esse motivo, importa também actuar a esse nível junto da comunidade profissional e académica.

É através do trabalho que se tem vindo a desenvolver, quer na formação de profissionais de saúde, quer ao lado de pessoas doentes e respectivos familiares, que se tem demonstrado o contributo que a Psicopedagogia tem trazido para a saúde mental em Portugal.

 

Agradecemos a recetividade à Profª Doutora Ana Cardoso pela amabilidade em nos conceder a entrevista.

A COMISSÃO CIENTÍFICA DA PLATAFORMA SAUDEMENTALPT


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